Que Cidade Queremos?

Todos os indivíduos e grupos de uma sociedade, sejam eles políticos ou de qualquer outra natureza, devem estar sempre repensando os rumos que a coletividade está tomando, como esses rumos afetam os indivíduos e a sociedade, e naturalmente executar os ajustes que se fazem necessários para que o bem-estar coletivo e o progresso sejam o objetivo maior de todas as ações políticas, sociais e econômicas. Numa sociedade madura, em que os poderes político e econômico, juntamente com uma consciência coletiva mais amadurecida convergem para o bem comum, esses processos de ajuste e regulação se dão de forma mais dinâmica, consciente e menos sofrida. Ainda não é caso da nossa imatura democracia. Nosso processo político e nossos ajustes sociais se dão aos solavancos, criando um cenário bastante caótico e de intensos conflitos de pessoas, grupos, interesses e ideias.

Vemos o poder econômico falando mais alto nas eleições e a maioria parlamentar não refletindo a composição da sociedade. Não devemos, no entanto, apontar o dedo para a classe política e ver nela a causa de todos os nossos males sociais, como se o mal viesse de “cima para baixo”. Não, não é assim. A malfadada corrupção brasileira está difundida em todos os cantos de nossa sociedade. Está no gabinete do executivo e do parlamentar, no escritório do empresário corruptor, na gasolina adulterada do posto da esquina, na balança do restaurante que é programada pra que seu prato pese mais, no dono do barzinho que põe três ou quatro chopps a mais na conta, no atestado médico que o funcionário público entrega sem estar doente, no troco a mais que o cliente não devolve, no sinal vermelho que é ultrapassado porque o motorista está com pressa, no jeitinho brasileiro de cada dia e no voto vendido e dado por interesses alheios ao bem estar coletivo .

Às vezes parecemos sofrer de uma certa hipermetropia comportamental; enxergamos só de longe, vendo mal de perto. Não enxergamos como nossos pensamentos, escolhas e comportamentos individuais se refletem nas nossas câmaras municipais, prefeituras, assembleias legislativas, câmara e senado federais, no judiciário e em quaisquer outras instituições importantes que afetam nossos rumos individuais e coletivos. Parafraseando Ghandi, devemos ser a mudança que queremos ver ao redor. Cada indivíduo e cidadão tem sua parcela de responsabilidade para com a coletividade na qual está inserido. E isso passa por analisar os próprios pensamentos e ajustar a própria conduta, levando em consideração o outro com quem convive, principalmente quando esse outro é menos favorecido.

Trazendo essa reflexão para Cabo Frio, por 21 anos e 6 eleições municipais consecutivas, a cidade viu a alternância de dois grupos políticos que apresentam entre si mais semelhanças do que diferenças. Não obstante algumas pequenas diferenças de gestão e temperamentos, as práticas desses dois grupos sempre foram as mesmas no coração de um mesmo modelo de gestão: esbanjamento de dinheiro dos cofres da prefeitura, quase zero de transparência das contas públicas e nada de desenvolvimento autossustentável e geração de empregos na cidade. Cabo Frio é uma pobre cidade rica em que boa parte dos seus cidadãos come somente as migalhas que caem das mesas desses grupos que fazem verdadeiros conluios pra ter as chaves da prefeitura sempre nas mãos. É preciso que a sociedade cabo-friense faça uma autorreflexão. Esses grupos foram eleitos democraticamente e permanecem no poder há mais de duas décadas com a anuência da maioria dos eleitores da cidade. Cabo Frio tem estado na mídia nacional de forma negativa e já é mais do que consenso que muitas das práticas desses dois grupos monopolizadores de poder nessas duas décadas são mais do que reprováveis. Não adianta fingirmos hipermetropia: essa conta vergonhosa também está também na mesa do eleitor. Como bem diz Leandro Karnal, a democracia nos dá a consciência do que somos.

O ano de 2018, com seus rebuliços e reviravoltas políticas em todo o país, trouxe para a nossa cidade a oportunidade de repensarmos os nossos rumos como um coletivo municipal por meio de uma eleição suplementar que ocorrerá daqui a pouco mais de um mês. Obviamente, devemos nos repensar e nos avaliar individual e coletivamente todos os dias, mas um momento eleitoral é um importante momento de avaliação do nosso aprendizado dentro de um processo de erros e acertos como sociedade. A cidade de Cabo Frio sofreu bastante nos últimos anos por conta de um modelo de gestão que já se mostra mais do que insustentável. Bons ventos nos presenteiam com a oportunidade de olhar pra trás e avaliar essas duas décadas de muitos desajustes que culminaram em muito sofrimento para a população nos últimos anos. Cada indíviduo e eleitor carrega consigo uma importante parcela de responsabilidade dos tempos que virão. Nesse domingo, dia 20/05, terá início não somente mais uma campanha eleitoral, mas um processo de reflexão e reavaliação que deve envolver todos os cidadãos que vivem nessa cidade. Que Cabo Frio queremos daqui pra frente? É a pergunta que devemos buscar responder nesse pouco mais de um mês que teremos pra reavaliar nossos rumos como cidade.

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Autor: Alex Vieira

Sou cabofriense, professor da rede pública formado em Letras, curioso, reflexivo e não recuso um bom papo e uma boa e saudável troca de ideias. Meu objetivo é fazer desse espaço um instrumento útil para mim e para as pessoas que irão acompanhá-lo e interagir com ele; uma ferramenta de crescimento mútuo.

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